Fundação Renova

“Família, família, cachorro, gato, galinha…”

Animais de pequeno e grande porte, sob cuidados da Fundação Renova, recebem visitas semanais de seus donos para manterem o vínculo afetivo

Publicado em: 15/01/2018

Assistência aos Animais

Depois de cerca de 20 minutos de trajeto por um trecho de terra da Estrada Real, que passa por Camargos, no distrito de Mariana (MG), a porteira da Fazenda Asa Branca já indica o local onde os animais de pequeno porte, resgatados após o rompimento da barragem de Fundão, ficam alojados e sob os cuidados da Fundação Renova até serem adotados ou, caso já tenham donos, até poderem voltar para suas famílias.

Assim que a caminhonete se aproxima da sede, é possível ouvir os mais variados latidos. Seu Zezé, como José Estevão Martins é conhecido, diz que os animais ficam assim, latindo de alegria, porque sabem que a aproximação do carro é sinal de que as visitas estão chegando.

Seu Zezé mesmo, que é de Pedras, distrito de Paracatu (MG), estava lá para visitar Susane, Miguel, Bob e Valente, seus cachorros resgatados logo após o rompimento. Ele tinha outros três, mas que acabaram não sobrevivendo à tragédia.

Hoje, na atual casa de Seu Zezé, não dá para criar os quatro cachorros, por causa da “falta de espaço”, conta ele. Mas fica feliz de poder visitá-los uma vez por semana, toda terça-feira pela manhã. A equipe de Assistência aos Animais da Fundação Renova organiza as visitas para manter o vínculo entre os bichinhos e seus donos, até que eles possam viver juntos novamente.

“O grande desafio da Renova é manter esse vínculo dos responsáveis que viviam muito perto dos animais e, hoje, vivem de uma forma mais distante. Se o vínculo se perde, lá na frente, juntar de novo pode ser difícil. Por isso, mantemos as visitas semanalmente, além de ser importante para as pessoas verem como os animais estão evoluindo”, afirma Rafael Matos, coordenador das ações de Assistência aos Animais.

Os cachorros são divididos, de acordo com afinidade e temperamento

Os cachorros são divididos, de acordo com afinidade e temperamento. | Foto: Divulgação

Para estimular e divulgar as visitas, a equipe de Assistência aos Animais contou com o apoio da equipe de Diálogo Social e de Reassentamento. Rafael conta que havia uma baixa visitação aos animais de pequeno porte. As três equipes planejaram, então, uma estratégia para mudar esse cenário. “Entregamos nas visitas do Diálogo e do Reassentamento uma espécie de cartão postal com um mosaico de fotos dos animais para que os donos procurassem pelos seus respectivos bichinhos. O material trazia um textinho dizendo que o animal estava com saudades. Foi um trabalho de aproximação bacana e que trouxe bom resultado”, conta ele.

As visitas aos animais de pequeno porte acontecem toda terça-feira. Uma van sai de Mariana (MG), por volta das 9h30, e vai até a Fazenda Asa Branca. A duração é acordada entre os donos. Mas quem não tem disponibilidade nessa data e horário pode solicitar à Renova o agendamento em dias alternativos. Além disso, quem quiser passar alguns dias com os animais também pode fazer a solicitação por meio do telefone 0800 031 2303.

Fazendo carinho em Susane, Seu Zezé conta que faz questão de visitar sempre, ele sente que os cachorros ficam felizes em vê-lo e também fica satisfeito de poder acompanhar a forma como estão sendo cuidados. Mesmo quando os animais ficavam em outro local, ele sempre visitava. “Amigo verdadeiro que a gente tem é esse”, diz ele.

Enquanto conversávamos, surgiu uma saltitante cadelinha branca, chamada Tequilla. Ela é conhecida como escaladora, já que sobe qualquer altura e consegue sair por cima da tela. Por esse motivo, a equipe da Fundação está adaptando o canil em que ela fica para restringir seus passeios ao horário estipulado de recreio. Luisa Orsini, veterinária da Fazenda Asa Branca, explica que todos animais são divididos em piquetes, de acordo com suas características. “São feitos, por exemplo, vários testes para colocar os animais que dão certo e podem ficar juntos. Os bichinhos menos sociáveis ficam em canis separados”, explica. O tamanho e o temperamento também são sempre levados em consideração.

Rotina de trabalho com os animais de pequeno porte

Existe uma rotina diária na fazenda para manter os animais saudáveis e bem tratados. Luísa conta que são quatro tratadores trabalhando diariamente no local e que se revezam para que os animais estejam sempre acompanhados. Logo que chegam, há uma conversa sobre a rotina da fazenda, depois, os tratadores colocam ração, trocam a água e, no final da manhã, lavam os canis e já percebem se há algum animal precisando de acompanhamento. A parte da tarde é dedicada aos atendimentos.

Na própria fazenda há um espaço ambulatorial e, também, uma área de quarentena, onde os animais com suspeita ou com doenças contagiosas ficam até melhorarem. Passam pela quarentena também todos os bichinhos que tiveram que voltar por algum motivo, como devolução de adoções ou aqueles que passaram um tempo com os donos. “Eles ficam na quarentena para ver se não manifestam nenhuma doença que possa contaminar os demais”, explica Luísa.

Animais para adoção

Junto aos animais que já possuem donos, estão aqueles que foram resgatados e esperam por adoção. Ao todo, são 25 cães e 4 gatos disponíveis. Para incentivar que os bichinhos ganhem um novo lar, a Fundação Renova realiza, periodicamente, eventos de adoção em diferentes distritos e municípios da região de Mariana (MG). Cerca de 10 eventos já foram promovidos e 126 animais foram adotados.

Rafael Matos explica que, após a adoção, os animais precisam de um tempo de adaptação. “A pessoa que adota tem que ter paciência, porque o animal já está habituado com a rotina na fazenda, com a convivência com outros cães. É uma mudança brusca na rotina. Muitos nasceram com a gente e acabam se apegando. As únicas pessoas que eles conhecem são os tratadores e veterinários”, relata.

Com Milton Tirúbio Gomes foi assim, ele quase desistiu da adoção, mas não teve jeito, a cadela Fia o conquistou. O encontro entre os dois pareceu coisa do destino. Ele estava passando pelas ruas de Mariana, quando observou a movimentação de um dos eventos de adoção da Fundação Renova. Ele se aproximou por curiosidade e, por coincidência, ele estava mesmo em busca de um pastor alemão. “Quando fui conhecer os animais, a Fia se levantou na hora e me fez um agrado, aí eu resolvi adotá-la. Ela já tinha quase um ano”, conta orgulhoso.

Em casa, as coisas não foram fáceis, Fia teve diarreias constantes, até que Milton entrou em contato com a Fundação para devolvê-la. Mas, no dia em que Fia iria embora, ele teve uma surpresa. “Pouco antes do pessoal buscá-la, eu estava deitado e senti uma lambida na minha orelha, era a Fia, aí desisti de devolver”, relata Milton.

Hoje, a relação entre a cadela e a família de Milton não poderia ser melhor. Ela tem um amplo quintal para brincar e conta com os cuidados do dono. “Eu que trato dela, limpo, dou comida, ensino. Hoje ela me acompanha até o portão, pega minha chave e obedece ao que eu digo”, diz.

Leninha Coelho morava em Bento Rodrigues (MG) e começou a trabalhar como tratadora. Ela se apegou tanto aos animais, que acabou levando para casa a Luana, uma cachorrinha que viu nascer. “Eu sempre gostei de cachorro, mas, depois que comecei a trabalhar, me apeguei mais ainda. Hoje prefiro trabalhar com os cachorros do que no comércio, que era o que eu fazia antes”, conta ela.

Cada adoção é acompanhada por seis meses. Veterinários fazem visitas uma vez por mês para saber como está a rotina dos animais com sua nova família. “Nós chegamos à casa do proprietário e conversamos sobre a interação do animal com os familiares. Verificamos se o bichinho está bem adaptado ao local, como está a saúde e o bem-estar”, explica Carla Porto, veterinária responsável por acompanhar o processo de pós-adoção.

Animais de grande porte

Assim como pequenos animais, os de grande porte também ficam em uma fazenda, chamada Bom Retiro, e em um pasto, na Fazenda Praia do Felício, sob os cuidados da Fundação Renova. Ao todo são 212 animais, entre bovinos, suínos e equídeos. Todos eles possuem donos, que os visitam semanalmente, toda quarta-feira pela manhã.

Na Fazenda Bom Retiro, são cinco pastos. Mas, quando é dia de visita, ficam reunidos em baias para aguardar seus donos. Manoel Marcos Muniz, Seu Marquinhos, vai sempre lá conferir como estão seus animais e os de seu irmão, que, por conta de um problema no joelho, por enquanto, não consegue visitá-los com tanta frequência.

Ele tem 26 bovinos e o irmão, 18, além de 2 muares (burros) e 11 suínos. Seu Marquinhos observa um por um. “Marco presença para cada um deles”, diz ao explicar o motivo do papel e da caneta em mãos. Ele também sempre troca informações com os veterinários, buscando o melhor tratamento para os animais. “Uma vez falei que estava faltando sal mineral para o gado, nós temos liberdade para sugerir, construir em conjunto”. Ele explica que o sal mineral é um complemento à dieta e contribui para o desenvolvimento do gado e melhoria do pelo.

Brenno Trota, veterinário responsável pelos animais de grande porte, logo confirma essa troca de conhecimentos entre os donos e os veterinários. Nesse momento, ele diz a Marquinhos: “Eu aprendo com você e te conto o que aprendi na faculdade”. Os dois explicam que, no momento, estão tentando resolver, juntos, a situação de uma vaca do irmão de Marquinhos. O bezerro já não mama mais, mas ela tem mamado nela mesma. Eles estão discutindo se devem colocar uma focinheira até a vaca secar, porque se continuar assim, irá estimular ainda mais a produção de leite.

“Família, família, cachorro, gato, galinha…”

Cavalos alojados na Fazenda Bom Retiro. | Foto: Divulgação

Para Marquinhos, que vivia em Bento Rodrigues (MG), a visita também é importante para relembrar a antiga rotina da comunidade. “Quando venho, observo como os veterinários estão trabalhando e, também, para mim, é muito importante ocupar o tempo. É uma ajuda, isso é vida pra gente. É uma convivência boa, a gente conhece e conversa com outros atingidos”, conta.

Seu Zezé também estava por lá. Além dos cachorros, ele tem um vaca, um bezerro e um burro. Orgulhoso, ele apresenta Estrela, vaca que cresceu com ele e, até hoje, o reconhece. “Eu sempre passeava com meus animais lá em Pedras. Eles acostumaram comigo, a Estrela me deixa passar a mão. Não tem nem como falar que não é minha”, enquanto mostra como Estrela o deixa fazer carinho e as outras vacas fogem quando ele chega perto.

Seu Zezé mostra como Estrela o reconhece e o deixa aproximar. | Foto: Divulgação.

Teimoso é outro orgulho de seu Zezé. Ele é um garrote, um gado ainda adolescente. “Perdeu a mãe novinho, quando tinha dois meses, então, começou a mamar em todas as vacas, por isso, dei o nome de Teimoso. Ele atendia pelo nome, quando pedia para ajoelhar, ajoelhava e só levantava quando eu mandava. Ele ia até a porta de casa, acompanhava a gente igual cachorro”, relata Zezé.

Seu Zezé e seu garrote, Teimoso. | Foto: Divulgação

“Eu fico com saudade das minhas criações, a gente fica até mais alegre quando vem, porque fazia parte da rotina vê-las todos os dias. Era bom se estivessem comigo, mas estão bem cuidadas”, conta Zezé, fazendo carinho na Estrela.

Ele estava acompanhando o tio, Wilson dos Santos, seu Nonô, que também foi visitar seus animais. “Venho sempre aqui, a gente fica olhando as vacas, vendo como estão. O pessoal está cuidando bem, elas estão bonitas.  Eu fazia queijo com o leite das minhas vacas, elas são todas mansas”, diz.

Os animais de grande porte são acompanhados diariamente por veterinários e tratadores. “Os tratadores fornecem alimentos e aproveitam para observar os animais. Qualquer anormalidade, avaliamos e definimos o tratamento adequado”, explica o veterinário Brenno Trota. Os cuidados principais são controle de peso e possíveis feridas que podem levar à berne, infecção causada pela larva de uma mosca.

Ele fala também da importância da troca constante com os proprietários para aproximar, ao máximo, a rotina dos animais ao que era antes do rompimento da barragem. Por isso, buscam sempre atender aos pedidos, desde que não prejudiquem os animais. O tipo de tosa é um exemplo. “Tem gente que prefere a crista do cavalo maior, para cair de lado, então, fazemos dessa forma, de acordo com o que os proprietários pedem”, conta Breno.

Há proprietários, como Marquinhos, que pediram que fosse feita a mochação, que é tirar os chifres dos bezerros ainda novinhos. Isso evita que se machuquem em uma possível briga com outros animais, além de facilitar o manejo.

Outra coisa que pensaram em conjunto foi o manejo dos bezerros. “Nós adotamos o sistema extensivo, com o bezerro ao pé da vaca. Durante as manhãs, os bezerros mamam e à tarde vão para o pasto. Eles se adaptaram muito bem. Dessa forma, temos animais maiores e mais saudáveis”, explica Breno.

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